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A Paz

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Ela tem mais 24 anos que ele. Brigitte é a Nova primeira dama da França. Palmas para o Amor!







Macron e Brgitte, e daí?

DO EL PAÍS
Isabel Valdés
Enganadora. Mamãe. Estranha. Papa-anjo. Surrealista. Até mesmo mentira. Até mesmo predadora. Todas essas são palavras para definir – nas redes sociais, e em manchetes e textos de meios de comunicação de todo o mundo – Brigitte Trogneux, a esposa de Emmanuel Macron e a relação de ambos. Todas elas palavras para definir, também, o enorme esforço para manchar algo que, embora possa ser pouco habitual, não deve ser vilipendiado. Trogneux é 24 anos mais velha que Macron. E daí?
Há apenas um mês, o recém-eleito presidente da França aludiu, no jornal Le Parisien, à homofobia “galopante” que emanava dos rumores que o uniam a Matthieu Gallet, presidente da Radio France, porque, obviamente, um homem da idade dele com uma mulher da idade de Trogneux só pode ser uma fachada para sua homossexualidade. E a partir daí Macron estendeu uma resposta à crítica social e midiática que recebe há meses por causa de uma história de amor que, sim, se encaixaria como folhetim, telenovela, série vespertina ou produção romântica no estilo de Hollywood. A questão não é que ocupe lugar no espaço público – ainda mais quando o presidente insistiu em posicionar sua mulher não apenas como parte de sua vida privada, mas também em sua vida política –, mas como o ocupa e que suposições derivam disso.
Quem ainda não conhece o passado e o presente do novo casal que ocupará o Palácio do Eliseu está, naturalmente, isolado do mundo há semanas. Começo da década de noventa: se conhecem no colégio La Providence, em Amiens. Ele, aluno. Ela, professora (casada e com três filhos, detalhe que parece essencial). Apaixonam-se. Pais que se opõem, um pouco de escândalo provinciano, e Macron acaba em uma escola secundária em Paris – com promessa de amor eterno. 2006: Brigitte Trogneux se divorcia. 2007: Trogneux e Macron se casam. Fim? Não.
Aparentemente, o imaginário de uma cidade de algo mais de 100.000 habitantes há duas décadas é o mesmo que o de algumas pessoas nessa avançada França de 2017; e quem diz França diz Europa, porque as piadas não ficaram restritas às fronteiras francesas. Pelas redes circularam charges de jornais, manchetes absurdas (Macron não tinha nascido quando sua esposa se casou pela primeira vez, por exemplo) e memes de mães com os filhos na praia, ou andando de bicicleta, com legendas como “as primeiras férias de Macron a esposa”, ou “Macron aprendendo a andar de bicicleta com a mulher”. Fora do Velho Continente, a maioria das manifestações foi diferente. “Brigitte Macron, libertadora”, foi o título do artigo de um colunista do The New York Times; “Emmanuele Macron e a família moderna”, escreveu a revista The New Yorker.
Macron designou, naquele vídeo do jornal francês, os dois problemas além da homofobia: a misoginia e a degradação da própria política ao fazer desse detalhe parte do debate. Um nonsense que, embora seja carniça evidente para blogs de fofoca, tabloides, revistas de fofoca, de celebridades e qualquer outro derivado, deveria ser uma informação meramente formal no resto dos meios de comunicação. A data e o local de nascimento de qualquer pessoa da vida pública é algo corriqueiro, o que é incomum é fazer disso uma manchete ou aproveitar isso para fazer críticas cujo máximo expoente acabou sendo o pai de Marine Le Pen, que chamou Trogneux de “Madame Cougar”.
Macron e Brigitte Trogneux, em 2016 ampliar foto
Macron e Brigitte Trogneux, em 2016 Stephane Mahe REUTERS / Cordon Press
A tradução literal de cougar é “mulher puma”, expressão que denomina mulheres que preferem homens mais jovens. De forma depreciativa, claro. A filósofa Michela Marzano explicou há uma década em um programa cultural da rádio francesa como essa metáfora é “insuportável”. O fato de querer reduzir uma mulher a um felino predador é converter o desejo feminino em determinada idade em algo perigoso, por um lado, e, por outro, é continuar alimentando a ideia de homem racional e mulher dominada pelos instintos, pelos piores, ainda por cima. “O uso dessa palavra cai quase no discurso do ódio e é uma maneira de silenciar a mulher com um insulto que consiste em voltar a colocá-la em seu lugar”.
É uma percepção social comum achar os homens mais atraentes à medida que envelhecem, e deixar de considerar tão atraentes as mulheres à medida que vão fazendo aniversários. Essa ideia generalizada tem muito a ver com o papel que o sexo feminino desempenhou ao longo da história, o de ser mãe. Não passaram tantos anos desde que se olhava de soslaio aquelas que não podiam ter filhos; desde que algumas mulheres “entendiam” que seus maridos tivessem amantes jovens; ainda hoje são repudiadas por essa razão em algumas culturas, como no Níger; e ainda se faz a típica piada, em países como a Espanha, onde se diz: “você vai deixar o arroz passar do ponto” se você já tiver completado 30 anos e não tiver um pretendente ou indícios de que o tenha.
Capa do semanário francês ‘Charlie Hebdo’
Capa do semanário francês ‘Charlie Hebdo’
Essa ideia de mulher, juventude, utilidade e validade associada à fertilidade ainda é generalizada, talvez às vezes inconscientemente. O semanário francês Charlie Hebdo serviu-se dela para fazer uma capa que foi criticada dentro e fora da França por ser misógina e sexista. Nela, se pode ler: “Ele vai fazer milagres!” e abaixo aparece Brigitte Trogneux grávida enquanto Macron toca uma barriga proeminente. A ridicularização da primeira-dama francesa à custa de sua idade e sua incapacidade de ter filhos com ele se desdobra como um símbolo de velhice, de passagem do tempo, de menor desejo por parte do homem.
Enquanto eles brandem cabelos grisalhos e rugas, sabendo-se capazes de procriar, às vezes também de seduzir e ser desejados até o último de seus dias, elas de repente começam a ser invisíveis. Se já não são jovens, belas e capazes de ser mães, o que lhes resta? De acordo com aqueles que fazem essa flagelação tosca, parece que nada.

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