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segunda-feira, 17 de abril de 2017

O esquema de propinas no Brasil tem 30 anos


O vídeo em que Emílio Odebrecht diz que esquema tem 30 anos e culpa a imprensa e os Poderes

Grupo empresarial se envolveu em vários escândalos e manteve proximidade com o poder

Há dias o Brasil está tomado pela visão do clã Odebrecht sobre o Brasil e suas estruturas de poder. Uma das frases que já se tornou célebre é a que patriarca do grupo, Emílio, de 72 anos, culpa a imprensa e os "Poderes" por uma suposta omissão a respeito do saque de dinheiro público que, segundo ele, vigora a décadas. “O que nós temos no Brasil não é um negócio de cinco anos, dez anos atrás. Nós estamos falando de 30 anos atrás" para enfatizar, em sua delação, que o sistema criado pela empreiteira para prosperar no Brasil, baseado em pagamentos de propina e corrupção, não é de hoje. Depois de narrar sua trajetória na companhia, iniciada por volta de 1966, Odebrecht-pai afirma que o sistema de corrupção de políticos com a empresa existe há décadas. Ou seja, antes mesmo de ele entrar na companhia, na época presidida pelo falecido pai, Norberto Odebrecht.
"Tudo o que está acontecendo é um negócio institucionalizado. Era uma coisa normal”, diz o patriarca. “Em função desse número de partidos, onde o que eles brigavam, era por que, por cargos? Não, todo mundo sabia que não era. Era por orçamentos gordos”, afirma, e explica o caminho dos partidos para conseguir tais orçamentos. "Os partidos então colocavam seus mandatários com a finalidade de arrecadar recursos para o partido, para os políticos. Isso é a há 30 anos que se faz isso", repete.
A Odebrecht decidiu fazer acordo de delação premiada somente depois que seu presidente, Marcelo Odebrecht, filho de Emílio, fora condenado a 19 anos de prisão pela Lava Jato, em março do ano passado. Naquela época, ele já amargava quase um ano na cadeia. Até então, a companhia insistia em negar quaisquer irregularidades.
Mas as cenas explícitas de corrupção narradas pelos delatores em dezembro e publicadas agora pela imprensa, segundo o raciocínio de Odebrecht-pai não deveriam causar surpresa. "O que me surpreende é quando eu vejo todos esses poderes, a imprensa, tudo realmente como se isso fosse uma surpresa", disse. "Me incomoda isso. Não exime em nada a nossa responsabilidade. Não exime em nada a nossa benevolência", reconhece. Mas, ainda assim, viver neste sistema por 30 anos faz com que seja "difícil" não achar que seja algo normal, desabafa o patriarca, fazendo de sua delação um divã. 

Sobrevivente de escândalos

Além de afirmar que absolutamente todos os anos em que trabalhou na companhia foram regidos por essa política corrupta do toma-lá-dá-cá, Emílio Odebrecht culpa a imprensa por não ter noticiado o esquema antes. "O que me entristece, inclusive eu digo aí a própria imprensa. A imprensa toda sabia de que efetivamente o que acontecia era isso. Por que agora estão fazendo isso? Por que não fizeram isso há dez, 20 anos atrás?", pergunta. "Essa imprensa sabia disso tudo e fica agora com essa demagogia", e diz que todos deveriam fazer uma "lavagem de roupa nas suas casas" para saber o que fazer a partir de agora.
“O que me surpreende, e eu procurei colocar de uma forma muito clara, mas quero ter a oportunidade de se enfatizar, o que me surpreende é quando veja todos esses Poderes e a imprensa, como se isso fosse uma surpresa. Olha, me incomoda isso”, continua.
Não é possível saber se o patriarca da companhia, com crescimento vertiginoso nos últimos 30 anos, está se referindo a algum caso de corrupção específico supostamente abafado pelos órgãos de imprensa do Brasil ou não investigado pelo Ministério Público ou punido pela Justiça. Há quem se pergunte se os delatores não falaram sobre o uso dos mesmos métodos para corromper políticos para aliciar agentes da Justiça ou donos de mídia. Há anos a Odebrecht protagoniza escândalos, um dos mais famosos dele o dos Anões do Orçamento, de desvio de verbas para obras, em 1992. Mesmo assim, jamais perdeu a proximidade com a classe política. Seguiu sendo um anunciante de peso e  a investir milhões em assessoria de imprensa.
Em seu livro Diários da Presidência, lançado em 2015 pela Companhia das Letras, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), acusado pela empreiteira de ter recebido recursos de caixa 2 para sua campanha, narra seu encontro com Emílio: “Almocei aqui com Emilio Odebrecht e a Ruth [Cardoso]. Emilio veio trazer sugestões, nada para ele, só a respeito de vários temas de interessa nacional. É curioso. Tem um nome tão ruim a Odebrecht, e o Emilio tem sido sempre correto, há tantos anos”. Mais à frente, nova menção ao empresário e a escândalos envolvendo a construtora: “Curioso, a firma Odebrecht ficou tão marcada pela CPI dos Anões do Orçamento, com o negócio da corrupção, e no entanto o Emílio é um dos homens mais competentes do Brasil em termos empresariais”.
Seja como for, a frase fez sucesso porque toca numa discussão importante durante toda a Lava Jato: o papel da mídia nos meandros da operação e na seleção de temas e personagens a destacar no decorrer das investigações. Críticos veem maior exploração nos casos ligados ao PT e ao ex-presidente tanto pelos próprios investigadores, o que eles negam, como pela imprensa.  Um dos casos mais controversos foi a divulgação, pelo juiz na primeira instância, Sérgio Moro, em 2016, de áudios de Lula e da ex-presidenta Dilma Rousseff, depois considerados ilegais pelo Supremo Tribunal Federal. Outra vertente de crítica defende que os casos do passado sejam divulgados mesmo que os crimes já estejam prescritos para colocar o esquema em contexto. Os procuradores da Lava Jato e Moro negam ter qualquer viés e defendem que a divulgação massiva é uma arma para que a operação seja defendida pela opinião pública.

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