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A Paz

sábado, 22 de julho de 2017

Para Vigo me voy. Espanha


Quando fui a Vigo naquele maio de 2009, com três amigas, tinha como plano principal visitar a terra natal da minha avó Carmen Torneros da Silva em Orense. 

Pegamos um vôo em Madrid direto a Vigo, cidade portuária que na minha história marca o embarque de minha avó para o Brasil no início do século XX em 1910 com destino ao Rio de Janeiro, Brasil.

Ficamos por ali uns 4 dias. Saímos em direção a Orense num coche alugado e passamos por muito lugares incluindo uma peregrinação a Santiago de Compostela.

Vigo é cidade desenvolvida da Galicia. Tem peculiaridades históricas. Uma delas, um grande monumento náutico em homenagem a Júlio Verne, autor de 20 mil léguas submarinas que dizem era um navegante que fazia paradas no Porto de Vigo. 

Seus restaurantes são acolhedores e me lembro da delícia de sua Jamoneria. Especialidade presunto ou "jamon".
Também a estátua imensa equestre no centro de uma praça principal destaca os cavalos alados encantadores.
Em seus bares tomei a caña um tipo de chope galego.

A proximidade com Portugal faz da sua cultura muito assemelhada à lusitana.
Depois de dias agradáveis deixamos Vigo rumo ao Porto por terra em confortável ônibus. 

De Vigo trago boas memórias e aqueles ares marítimos de uma Galicia emigrante que exportou milhares de filhos para as Américas. 
Cida Torneros


Ese tipo soy yo


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Naquela mesa


Always


Tuareg

Ele é guerreiro
É justiceiro
Ele é bandoleiro
É mandingueiro
Ele é um tuareg...


Um tuaregue no meu quintal




Um tuaregue no meu quintal 



É que  um “tuaregue” passou a visitar o meu quintal, sem mais nem menos, vindo talvez desde o Saara, envolto em manto que lhe cobre a cabeça, mas lhe deixa livre o fundo de um olho atrevido, que me espreita e faz enternecer.  Ele é alto e forte, sorri com o canto dos lábios, tem voz anestesiante e fala através de linguagens de sinais, em tom baixo emite sons de um idioma que tento decifrar. Faz gestos comuns a adolescentes assustados. Usa até gírias que nem conheço direito, tento traduzir, como posso e consigo, pois necessito compreender os porquês das suas vindas a mim, no calor dos meus anos incrédulos, quando eu pensava que já tinha visto de tudo e não me restava aprender quase nada além.






Às vezes penso que ele é um espírito antigo querendo me comunicar algo de sobrenatural.  Claro, que, apesar de nunca ter pisado oficialmente nas areias ferventes dos desertos africanos, não me é custoso  imaginar como sejam as miragens, quando a mente ensandecida sonha com oásis verdejantes, ventos que refrescam corpos suados, águas que dessedentam gargantas sequiosas de líquido revigorante.



O duro deve ser quando se é surpreendido pela cruel realidade após a visão fantástica do sonho, e se descobre que aquelas imagens deliciosas não passaram de produção prodigiosa e defensiva de imaginação fértil em solo infértil, ou melhor, uma grande postura sobrevivente, em momento crucial e devastador, a loucura que é atravessar um deserto onde o infinito é tudo, o horizonte é tudo, o céu e o chão de areia são quase nada, e o mundo se resume a dias e noites de solidão, propícia à meditação e ao jejum.



Pois não é que no meu quintal apareceu um “tuaregue”?



Custei a crer, fui sentindo sua presença bem devagarinho. Primeiro, observei seu andar desengonçado a circundar o meu jardim, tive dele a impressão de que me queria como uma mulher para se levar na corcova de um camelo. Mas, lembrei que  no Marrocos, por exemplo, eles trocam as mulheres por camelos valiosos, e me vi metida numa história pra lá de Marraquesh, onde entraria numa roubada.



Eu me vi, então,  como uma roubada criatura, abduzida por um berbere de origem mulçumana, com sua questionável e milenar sede de possessividade. Era a sua chance de me conduzir a uma dessas tendas recheadas com almofadas, tão macias e sedosas, dando-me sucos afrodisíacos para beber ou me induzindo a comer tâmaras secas como se fossem uvas frescas. Habituei-me então a usar vestidos que aderissem às minhas curvas mas que não denunciassem detalhes dos meus contornos. Inspirei-me nas burkas, aliciei colares e brincos para me protegerem dos maus olhados, pintei de vermelho as unhas dos pés, ergui meu pescoço em direção ao azul e me concentrei na espera do que poderia acontecer.



O que posso esperar ou lhe oferecer? Pergunto se toma café, bebida comum na terra brasilis, um pouco diferente dos seus habituais chás de ervas e seu apurado gosto pela menta. Ele, a princípio, ao pegar a caneca que tem o símbolo de um time de futebol, teme que seja uma inscrição religiosa, pergunta-me do que se trata apontando o desenho vermelho e branco. Titubeia ao segurar o objeto, onde lhe  sirvo a bebida quente, escura e perfumada, que acabo de ordenar ao “gênio” da cafeteira elétrica que atendeu um dos meus três pedidos a que tenho direito nesta manhã ensolarada de uma sexta-feira. Um gole de café cheiroso é meu cartão de boas vindas ao visitante que veio de longe.



Esclareço que pode pegar sem susto na porcelana antiga, é herança do meu pai e o escudo é de um tradicional clube carioca, que mora no coração de todo torcedor não fanático. Refiro-me ao América, agremiação pela qual tenho carinho especial. Ele relaxa, acena para Alah em agradecimento, bebe de um só gole, devolve-me a xícara, porém, maliciosamente, encosta seus dedos nos meus, num gesto que dura um segundo premeditado, o que me passa uma corrente eletrificada causadora de um arrepio extra-corpóreo, sacudindo-me as entranhas e o espírito vagante, unindo extremos que funcionam como fios terra, ligando-me a algo tão novo quanto surpreendente, a partir de então.



Tento voltar ao meu estado emocional de equilíbrio consciente. Nada, ando flutuando ao sabor da materialização que este ser assumiu, sua aura e energia me confundem. Apelo para meus estudos de poder positivo da mente,“sapeco”  discurso de professora universitária, digo que ele está em terra de estranhos, falo de distâncias nossas, impossibilidades para mantermos qualquer tipo de relacionamento, lembro que somos como a Terra e o Sol, Cristãos e Mulçumanos, agradeço sua visita inesperada, ainda consigo ouvi-lo falar que sonhou comigo, mas entro, fecho a porta, escondo-me atrás da vidraça, cerro as cortinas.


Ando cansada de conversas de homens de lugares distantes. Já conheço as manhas dos americanos, italianos, franceses, portugueses, brasileiros de outras cidades, espanhóis, e agora, só me faltava essa, um habitante tão nômade, de costumes tão díspares a me conquistar com sua perseverança, como dizem por aí, a me comer pelas beiras.



Muitas horas e dias depois, ouso olhar de novo o meu quintal. Lá está o vulto dele. Altivo, de pé, manto enrolado na cabeça, sorriso contido, olhar direcionado à minha porta. – Ainda estás aí, “Tuaregue”? Não vais embora?



Afinal, não é todo dia que um “tuaregue” de linhagem principesca, com ares de mandingueiro, como o daquela música do Benjor que a Gal gravou nos anos 70 invade o meu Jardim. Pelo seu jeito, tudo indica que veio para ficar.
                                      Cida Torneros

                                       



Per amore


Sangue latino